sexta, 06 dezembro 2019
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Desafios da prematuridade: Pais antes de tempo

Publicado terça, 19 novembro 2019 16:39

Um filho existe desde o momento em que os pais sonham com ele, o desejam e planeiam a sua vinda ao mundo. O período da gravidez é frequentemente vivido pelo casal com um turbilhão de emoções, numa mistura de receios e antecipações positivas (...)

Um filho existe desde o momento em que os pais sonham com ele, o desejam e planeiam a sua vinda ao mundo. O período da gravidez é frequentemente vivido pelo casal com um turbilhão de emoções, numa mistura de receios e antecipações positivas imaginando como será o seu bebé. O que os pais e mães desejam e esperam é que a gravidez progrida até perto das 40 semanas e que possam iniciar rapidamente os cuidados ao seu bebé, levando-o para casa e dando assim continuidade a um processo de vinculação. Só que todas as gestações são diferentes e por vezes determinadas condições clínicas desencadeiam um parto prematuro que vem alterar violentamente todo o percurso emocional que estava a decorrer no casal. Quando o nosso filho tem uma aparência frágil e minúscula, (imagem essa muito distante dos bebés que surgem em posters de publicidade e dos que povoam o nosso imaginário) e fica internado numa UCIN - Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais logo a seguir ao nascimento, emergem sentimentos de tensão, angústia depressão e mesmo stresse pós-traumático.

Não é fácil ser mãe e pai quando o bebé está numa UCIN, ou neonatologia ou neo para os pais mais íntimos, é na verdade um ambiente assustador, estéril, repleto de aparelhos e instrumentos médicos, intrusivo, sem intimidade familiar. A mãe, cansada, sem possibilidades de repousar ou de se alimentar adequadamente tem muita dificuldade em conceber estar noutro lado que não ali, no hospital, ao lado do seu bebé. Contudo sente-se vulnerável, não esperava ser mãe assim, não conhece o seu papel, a sua função. Sabe que tem que estar ali, mas sente-se incompetente, não sabe o que fazer e sente-se até inútil perante médicos e enfermeiros que lhe dizem o que fazer o que não fazer. É como se este filho não fosse verdadeiramente seu. O pai também vive a estranheza de não conseguir descodificar o seu papel, experimenta sentimentos de alienação, de não encontrar espaço para expressar emoções para revelar fragilidade, sentindo-se por vezes um intruso num mundo impregnado do feminino. E assim o cenário que se antecipava só com tonalidades de ternura, orgulho e enorme alegria, surge com tons completamente diferentes, pincelado com os tons do medo. E o mundo não treme só ali, treme por dentro, treme em casa, treme nas relações de casal treme na atenção a outros filhos.

As equipas das unidades que acolhem estes seres humanos pequeninos e frágeis levam também ao colo os seus pais, que naquele momento também se sentem pequenos e frágeis. É um papel primordial o dos enfermeiros, médicos e psicólogos de apoio à neonatologia, o de ajudar estas mães e estes pais a sentirem que também ali há espaço para amar, para a ternura, para ser família. Para ajudar estes casais a sentir que importam e muito, que o seu bebé precisa tanto deles quanto daqueles tubos e aparelhómetros. Que ali dentro também é possível cuidar do seu bebé.

Ao longo do período de internamento, em que os progressos e retrocessos são constantes, seria mandatário providenciar apoio psicológico a pais de filhos prematuros, mas tal não é ainda geralmente colocado em prática. É preciso estimular a relação entre os vários casais que estão muitas horas do seu dia nas instalações neonatais, fomentar a partilha e a autoajuda, promovendo assim o grupo a ser um efetivo suporte.

Artigo de Opinião de Alexandra Rosa - Psicóloga

 

 

 

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