terça, 19 janeiro 2021
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Ponte da Mizarela (Vieira do Minho): obra de belzebu, que deus perpetuou

Publicado sexta, 18 dezembro 2020 11:36

A tarde de chuva, fria e morrinhenta, lá deixou a vontade de sair prisioneira do conforto, fazendo olvidar o confinamento a que estamos votados. O dia, assim, tomou conta de mim e, no aconchego de casa, folheei um dos livros que mais estimo (...)


A tarde de chuva, fria e morrinhenta, lá deixou a vontade de sair prisioneira do conforto, fazendo olvidar o confinamento a que estamos votados. O dia, assim, tomou conta de mim e, no aconchego de casa, folheei um dos livros que mais estimo (...)”. A sua memória, parece-me oportuna, pois, creio que os jornais regionais devem sair da monotonia do seu berço, desafiando a imaginação e a cultura de novos conhecimentos. Tal como a pequena águia, habituada ao ninho e à alimentação fácil, fruto do esforço de seus progenitores, se deve fazer à vida! Assim, tendo por suporte este princípio, também o leitor deve fazer-se a novos horizontes, sob pena de cair no marasmo da vida rotineira do seu terreiro. Na Obra referida, do ilustre médico de Valença do Minho, aludindo ao dito local, pode ler-se: “A freguezia, situada em valle accidentado, nas faldas da serra da Cabreira que a limita pelo sul, é ao poente limitada pelo rio Saltadouro, e a norte e nascente circumscripta pelos rios Cavado e Regavão (ou Mizarella) proximo de cuja confluencia existe a lendaria ponte d´este nome, tida e havida na superstição popular, como obra de Satanaz para apanhar a alma d´um patife, de terras de Além-Douro, que, perseguido continuamente pelas justiças, devia á natureza selvatica d´estes logares a decidida vantagem d´um refugio seguro”. Ora, quisera o patife demitir-se da justiça em lugar ermo, tão ermo como a sua conduta, isenta dos mais elementares valores. Porém, como nada é tido e havido como certo, lá chegou o dia do acerto de contas com a justiça. Mas, lá está, a ocasião faz o ladrão e, num certo dia “(…) transviado quando o perseguiam muito de perto, achou-se de repente á borda d´este abysmo da Mizarella, medonho pelo alcantilado dos penedos e pelo fragor das aguas, que ahi se despenham em furiosas catadupas, e julgou-se irremediavelmente perdido. Invocou o diabo para que o salvasse e tanto bastou, para que a visão de Satan surgisse na sua frente, como um bom diabo de magica”.  A aflição do patife foi tal, que o mesmo tomado pelo trágico destino, depressa suplicou: “Faze-me transpôr o abysmo e dar-te-hei a minha alma. Popôz afflicto o desgraçado”. O Diabo, como se sabe, alimenta-se da desgraça do Homem, das suas fraquezas. E, logo, sorriu, fazendo surgir uma ponte sobre o rio, tendo o patife atravessado a mesma, fugindo à justiça. Logo que o infame a atravessou, a mesma derrocou em estrondo. Os anos foram passando, e o patife, com remorsos pelo infeliz pacto, que fazia do Diabo legitimo dono da sua alma, confessou a um Sacerdote esse contrato maldito. O Sacerdote, esperto como um rato, conseguiu extorquir a alma do patife vendida ao Diabo e, ao mesmo tempo, repor a ponte que o mesmo criou e fez derrocar. “Disfarçou-se em salteador o bom do padre e ao mesmo sitio se foi esconjurar o diabo, que immediatamente appareceu e acceitou logo o novo pacto, que lhe dava uma outra alma, mercê da mesma ponte”. Todavia, Deus é grande, manifestando toda a sua força, inteligência e audácia, no próprio Homem, imagem de si mesmo, que percorre os caminhos da fé, na esperança da redenção dos seus pecados, cultivando as virtudes da bondade e os mandamentos supremos do criador. Ora, a lenda não podia ser despojada de surpresa, de tal modo que o padre atravessou a ponte e, mal se apanhou do outro lado, “(…) puxa d´um ramo de alecrim e d´uma caldeirinha de agua benta, que levava oculto, e asperge a ponte fazendo o signal da cruz e os exorcismos da egreja. O diabo, assim illudido, perdeu logo todo o seu magico poder, e, dando um estoiro medonho, fugiu espavorido, deixando o ar toldado d´um fumo negro e espesso, de resina, enxofre e pez”. A Ponte da Mizarela é por muitos eruditos atribuída à época romana, e de acordo com José Augusto Vieira, a mesma foi alvo de várias reconstruções, o que “(…) não abona muito os conhecimentos do Sr. Engenheiro-Satanaz”. Sabe-se que na dita Ponte o Exército Francês padeceu duros golpes, quando batia em retirada, e nela houve em março de 1827 um pequeno recontro entre as tropas realistas do Silveira e as liberais do General Zagalo. Espero que o leitor se tenha deleitado com esta estória, da lenda da Ponte da Mizarela.

Termino com breves palavras, que o espírito inquieto me incita a cinzelar.

Ponte da Mizarela, obra do Belzebu,
Que o patife suspirou, mirrando o cu.
O medo, a fez emergir, no alcantilado,
Estoirou como foguete, obra do Sagrado.
Nunca te vendas, vil mortal, evita sofrer,
negócios mal feitos, deles podes morrer!

Rui Manuel Marinho Rodrigues Maia
Licenciado em História pela Universidade do Minho

 

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