sábado, 19 setembro 2020
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A política portuguesa, Bocage e nós: quartetos e outras combinações

Publicado sexta, 04 setembro 2020 14:47

Aqui começamos por vociferar contra Portugal, país que foi pomposo, e agora vai tão mal. Bocage inspira os seres ardentes por palavras, as que arrancam suspiros, as que fazem dar rizadas. A política portuguesa é uma comédia (...)


A nós inspira Bocage, com sua retidão mordaz,
dando ao cego visão, ao manco, corrida audaz.
O ser se ganha em vil praça, Atena sob ameaça,
nepotismo que nos cerca, o povo enfurece, e mata.

A Gália prenha pariu a revolução da sorte,
filha no colo de muitos, para outros, a morte.
Não queria crer em purificada luta, pelo poder,
liberdade em prender, os que não queriam ver.

Portugal colocou-se ao lado dessa aurora finda,
nada morta, feto precoce, mesmo na sua vinda.
A liberdade, é como presente de ligeira ocasião,
compra-se mesmo sem pensar, dá-se sem razão.

Tida como certa, a liberdade prende, não liberta,
muitas vezes ser-se livre, liberdade, é morte certa.  
O pão e o circo são moeda de troca do enganador,
ilude a plebe, reinando sem vergonha, sem pudor.

(Rui Maia)

Aqui começamos por vociferar contra Portugal, país que foi pomposo, e agora vai tão mal. Bocage inspira os seres ardentes por palavras, as que arrancam suspiros, as que fazem dar rizadas. A política portuguesa é uma comédia interessante, tão depressa o presidente está triste como em selfies surge radiante. Aqui, neste país medíocre, ninho de corrupção, a justiça prende o pobre, libertando o ladrão. Vestido de fato, gravata, esticado à feição, entrevistas dá por aí, sem qualquer paixão. Ai destino, quem dera ser como um maremoto, uma qualquer tempestade, que acabasse com a farsa, com tanta inverdade. As eleições autárquicas estão em banho-maria, uma promessa ou mais, pautam o dia a dia. Avulsas, feitas na ocasião, saem tão bem como as enformadas, pois então. O orçamento de Estado tem que ser aprovado, até mesmo pelas muletas do governo passado. A direita morreu na praia, por tanta mentira e carga canalha. O que resta é um pouco de radicalidade, de uns poucos apelidados de loucos, que ainda vomitam a verdade. Engenhosa a arte do enredo, de fazer comprar o pobre, ficando sem seu senso, sem medo. Os tribunais tentarão julgar tudo aquilo que sabemos ficar em águas de bacalhau, ficando a rir-se, o mau. A nação é amordaçada, aniquilada, vendida ao preço de nada. Vistos Gold e outras benesses damos à revelia da Lei, contra ditames da OCDE, enquanto impérios duvidosos se fazem, erguendo-se incólumes, em pé. Ao cidadão, a quem se dá com uma e se tira com outra mão, é arte política, um perdoar sem perdão. A união familiar é palavra de ordem, instalada na cúpula de Olisipo, no norte bem se chora, pedindo, sem se ouvir sequer o grito. Alguns jornais e interesses instalados, muitos afamados, atiram os dados, para nossos pecados, do que está por vir. Mais do mesmo, um calvário bem enfermo, isento de moral, sem ética nem vergonha, assim vai Portugal. A política é como porca prenha, rodeada de bacorinhos, ansiosos por mamar. O Estado estende a sua teta enquanto esta não secar. Apetece dar alento às palavras, vontade triste de soltar, são tantas as amarras que nos prendem, não as de pensar. Nada nos pertence, senão o pensamento, tudo é doce envenenado, desde a propriedade que não é nossa, às garantias do Estado. A política portuguesa nos quer vencer, em falta  das mais nobres sensações, petrificando almas, extorquindo corações. Mas, quão horrenda é nossa precipitação, nesse julgamento popular, onde todos gemem de fome, deixando a mediocridade ganhar. A luta foi vencida, pela sementeira viciada, de um mundo prometido, que se sabia não dar nada. Rebento que não rebentou, flor que não vingou, jardim auspiciado, profanaram o paraíso, semeando vil pecado. Avareza, se senta na mesa, da pobre sociedade, labuta de sol a sol, mantendo mandriões no poder, de uma vida que querem mole. Não há neste país partido algum sensato, têm todos mil manhas, como tem meigo gato. Assim vai ela, a pobre da nação, tomada e embalada por essa canção.

Vai à bola, bebe teu avermelhado caneco,
alheia-te da política, deixa-te ser boneco.
Se na bola não vislumbras teu bel prazer,
romarias e festas, nessas poder bem ser.
O português domado pela vã clemência,
deixa-se amarfanhar pela incompetência.

Rui Manuel Marinho Rodrigues Maia
Licenciado em História pela Universidade do Minho

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