segunda, 27 janeiro 2020
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Os “Miseráveis”!

Publicado quarta, 04 dezembro 2019 14:44

Ainda criança, ouvi-a os meus irmãos, emigrantes em França, a falarem-me dos sem-abrigo, dos “clochard” que vagueavam pelas ruas ou pediam à porta das catedrais. Confesso que fiquei baralhado e até admirado. Então, a França, para onde (...) 

Ainda criança, ouvi-a os meus irmãos, emigrantes em França, a falarem-me dos sem-abrigo, dos “clochard” que vagueavam pelas ruas ou pediam à porta das catedrais. Confesso que fiquei baralhado e até admirado. Então, a França, para onde eles emigraram, (para não irem para a guerra do ultramar), que era um país muito rico, e tinha este nível de pobreza?

Em Portugal, nunca tinha visto tal coisa. Os pobres, que eu via, pediam de porta em porta, com uma certa dignidade e, sobretudo, muita educação. Do resto, eu nada sabia.

Este, era o Portugal, no final do consulado Salazarista, da década de sessenta, onde os pobres, os poucos que vagueavam pelas ruas eram escondidos....

Hoje, e este ano, é tema nacional. Isto, porque o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, pediu ao governo para erradicar esta chaga.

É evidente que há aqui um certo “delírio“ por parte do Presidente. Não que a medida não seja boa, mas não é possível, ou exequível. Mas serviu para abanar consciências e melhorará um pouco a vida daquela gente. Mas não é possível porquê?

Porque varias razões. A saber;

Porque há quem não queira abandonar a rua, quem já esteja lá há tantos anos que já se tenha habituado a essa comunidade. Ora, contra isso, nada há a fazer. Há, ainda, aqueles que, mesmo tendo um trabalho, continuam sem capacidade financeira para pagar uma renda e conseguir sobreviver. Esta é, uma nova realidade. Há os adictos, do álcool, das drogas, da prostituição e de outros vícios em várias vertentes. Há também os que sofrem de problemas psíquicos. A rua tem imensos casos. Por outro lado, também temos de reconhecer que não há pais nenhum, por mais rico que seja, que o tenha conseguido erradicar. Nós, ate nisso, somos pequenos, se compararmos, percentualmente, cidades como Lisboa e Porto, com grandes metrópoles. Mas, ainda bem. Basta ver os números percentuais de cidades como Madrid, Bruxelas, Londres ou Paris.

Mesmo assim, não é algo que nos dignifica ou orgulhe. Eu olho para eles, ou elas com todo o carinho e respeito. Cada pessoa daquelas, cada ser humano encerra uma história de vida, por certo digna e respeitável.

Há associações de cariz voluntario que tudo fazem para lhes minimizar os efeitos de quem vive na rua, de quem faz desta a sua “casa”, sem nada ter por garantido. Nada em absoluto.

Há a benevolência das forças da autoridade, que, vão adiando o seu poiso, o seu vão de porta, escada, Metro ou um viaduto.

E, convenhamos que, para todos os sem-abrigo, há um facto que os preocupa, algo que os liga: o não terem um lugar para passar a noite.
Isto é indigno de qualquer sociedade civilizada, reconhecer e presenciar este facto e assobiar para o lado sem nada fazer. É um acto criminoso e nada democrático.

Na cadeia e no hospital, todos temos lá um bocado, diz-se. E eu acrescento. E na rua também. A vida é pródiga em surpresas, demasiado pequena para ser vivida, mas grande demais nas suas cambiantes.

Candemil, a 23 de Novembro de 2019
José Venade

José Venade, escreve de acordo com a anterior ortografia

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