domingo, 31 maio 2020
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Desconfinando conversa

Publicado terça, 19 maio 2020 14:44

Era oficial. Tinha chegado finalmente a ordem de soltura: - Agora era preciso desconfinar, voltar à normalidade, podemos avançar; isso sim, sempre com muita atenção - pregavam as autoridades. “Desconfinar a desconfiar” como diriam aqueles (...)


Era oficial. Tinha chegado finalmente a ordem de soltura: - Agora era preciso desconfinar, voltar à normalidade, podemos avançar; isso sim, sempre com muita atenção - pregavam as autoridades. “Desconfinar a desconfiar” como diriam aqueles poetas ligeiros, intensificadores de emoções, que não deixam passar uma boa oportunidade para fazer trocadilhos com as palavras.

Foi nesta altura que decorreu o seguinte diálogo entre dois maduros amigos de longa data (o José e o António) que não se encontravam há já bastante tempo.
Assim, depois de dois meses de clausura caseira por causa do vírus, perguntou o José ao seu amigo António (mantendo a distância de segurança e sem qualquer tipo de cumprimento além de um desajeitado e frio acenar com a cabeça, foi desta forma que os amigos encetaram o diálogo do desconfinamento):

  - Nem acredito! Finalmente podemos passear na rua, apanhar ar puro, como estás António?
  - Oh pá! - respondeu o António - estive fechado na casa em bricolages e arrumações, como todos; agora estou bem, mas olha que quase virava de juízo...
  - Também eu; mas parece que o pior já passou! - replicou o José.
  - Achas mesmo? - duvidou o António.
  - Não sei. Mas não dá para ficar mais assim! “Bola prá frente”, como dizem os brasileiros, que já tivemos tempo de tirar algumas conclusões para o futuro.
  - A que conclusão chegaste? – questionou o António.
  - Cheguei a duas conclusões – susteve o José; primeiro que escrever livros deve dar um trabalhão do caraças! - tendo prosseguido - por isso é que só agora percebi a razão do Sócrates (antigo Primeiro Ministro) nunca ter escrito qualquer livro; é lixado.
  - Ah! Ah! Ah! - riu-se a gosto o António - que bom, ainda bem que não perdeste o sentido de humor; mas qual é a segunda conclusão?
  - A história repete-se meu estimado amigo - respondeu o José - nunca devemos esquecer isso. Olha, além das coisas banais para ocupar o tempo, também recorri à leitura como meio de terapia e li coisas aparentemente pouco recomendáveis para esta altura, mas que até gostei.
  - Então, leste o quê? – interrogou o António.
  - Li dois livros; primeiro acabei o calhamaço “Cem Anos de Solidão” de Garcia Márquez e depois “A Peste” de Albert Camus. Adorei principalmente “A Peste”; é a história dramática de um vírus que arrasa uma cidade e por incrível que pareça foi-me muito útil para passar o tempo, mas também aprendi bastante.
  - Como assim? – admirou-se o António.
  - É incrível como a história se repete – reiterou o José: - Primeiro a incredibilidade da população e a desvalorização do assunto pelas autoridades; - depois vem o alarme, cordão sanitário à cidade, isolamento social, quarentena, separação familiar, uso das máscaras, hospitais de campanha, mortes e mais mortes, funerais solitários, cemitérios improvisados, valas comuns, sofrimento, desespero, gráficos, curvas, planaltos, loucura, procura da cura, testes... tudo isto também corre neste livro publicado há mais 70 anos que observa como as cidades, o capital, e todas as regras sociais e morais caem por terra quando a ordem estabelecida é ameaçada. Ademais - prosseguiu - este livro foi um dos que mais se leu nesta altura, uma espécie de oráculo do momento que estamos a passar, ao mesmo tempo que um relato de tempos que já atravessamos por diversas vezes na história. Coincidências.
  - Ah! que engraçado - respondeu o António surpreendido - esse também foi o livro que li mal me confinei. Também acho que na cidade pestilenta de Oran (Argélia), onde decorre a ação do livro, encontramos um espelho do nosso terror atual. Mas aí a culpa era dos ratos...
  - Estás certo - sublinhou o José – é isso mesmo, no livro de Camus foram os ratos que espalharam o vírus da peste, mas não deixei de reparar numa curiosa coincidência...
  - Então? – surpreendeu-se o António.
  - Sabias que 2020 na China é o ano dos... ratos! – relevou o José.
  - Porra! estavas mesmo a precisar de apanhar ar.

V.N. Cerveira, 12/05/2020
Vítor Nelson Esteves Torres da Silva

 

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