segunda, 27 janeiro 2020
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Uma ponte chamada Jesus

Publicado sábado, 04 janeiro 2020 14:17
É verdade que escrevo esta crónica em plenas festividades natalícias, este ano com uma pujança ainda maior, pois o mês de dezembro está a ter em muitas localidades, incluindo freguesias urbanas, um dinamismo mercantil muito acima de anos anteriores. Não se vislumbra alguma crise e as (...)
 

É verdade que escrevo esta crónica em plenas festividades natalícias, este ano com uma pujança ainda maior, pois o mês de dezembro está a ter em muitas localidades, incluindo freguesias urbanas, um dinamismo mercantil muito acima de anos anteriores. Não se vislumbra alguma crise e as autarquias esmeram-se nas festividades e iluminações. São luzes, quiosques de vendas, circo e outras diversões, patinagem no gelo, num país de clima mediterrâneo, etc. Alguns dos acessos ficam bloqueados com o transito e as romarias fazem lembrar os santos populares. Viva o marketing e o consumismo e quem não tem dinheiro ou não quer gastar, porque ainda há muito mês pela frente, assiste. Ah, mas sobre o Homem que está na origem do Natal (Jesus Cristo nascido há 2019 anos num “cenário” de extrema singeleza), praticamente não se veem “vestígios” nessas autênticas feiras de diversões e consumismo. Nem presépios se veem! De facto, o Natal cresce como período de forte negócio comercial e de propaganda pacóvia, mas desce, cada vez mais, nos valores humanos que lhe estão na origem. Tenta-se “construir pontes” nos valores como a amizade, a solidariedade, etc., mas passadas as festividades, as pontes ficam interrompidas. A parte rica do globo, como que um anel situado a norte da terra, estará a perder-se na “religião” do consumismo. Curioso que este período coincide com muitas manifestações que decorrem em protesto pela falta de combate a todas as formas de poluição da Terra que herdámos e que deveríamos deixar, aos nossos descendentes, melhor do que nos foi transmitida. Há muita incoerência entre os “protestantes”, pois nessas manifestações o lixo que provocam deveria envergonhá-los.

Mas a minha ideia desta crónica assenta num homem do futebol, agora treinador, chamado Jesus, isto é, Jorge Jesus (JJ). Qual Pedro Alvares Cabral, ousou ir à “descoberta” dum país onde o futebol é rei e que é o maior exportador de futebolistas para todo o mundo. Para o nosso país, há décadas que os futebolistas e alguns treinadores brasileiros descobriram Portugal. No sentido inverso, isto é, jogadores e treinadores portugueses a rumarem ao Brasil, contam-se pelos dedos das mãos. Isto porque, infelizmente, os portugueses no Brasil continuam a ser vistos como os “padeiros” e passou a ser sistematicamente desvalorizado e até esquecido, ao ponto muitos brasileiros não associarem sequer a língua que falam com Portugal. O inesperado sucesso de Jorge Jesus no Brasil como treinador do Flamengo, da cidade do Rio de Janeiro, mostra o imenso impacto mediático que só o futebol consegue, isto é, todas as outras formas de difusão de um país não se comparam ao impacto das vedetas do futebol que é um fenómeno sem explicação. Comecemos em Eusébio, Figo, Cristiano Ronaldo e agora, ainda sem a abrangência mais planetária - Jorge Jesus. Ele venceu desportivamente e (con)venceu a arrogância de muitos brasileiros influentes no futebol: treinadores, jogadores e jornalistas desportivos. Felizmente que o “pai” de Jesus o ajudou, porque, no futebol, não basta ter mérito. Depende de outros fatores imponderáveis e “inexplicáveis”.

Quando JJ pensou deixar este pequenino país, também futebolisticamente, e ainda nas “arábias”, onde esteve pouco tempo, sonhou que lhe apareceu Jesus e lhe disse. Tu que és cristão e porque usas o meu nome, mesmo aqui neste país muçulmano, podes fazer-me um pedido, de três à tua escolha, que eu te o concederei. Então o Jorge começou por pedir uma ponte entre Portugal e o Brasil, mas Jesus disse-lhe que era impossível; então o treinador pediu-lhe que acabasse com a pedofilia em Portugal e também lhe foi recusado (é muito difícil - disse Jesus), e então pediu que Ele acabasse com a corrupção no nosso país. Jesus Cristo pensou por algum tempo e, por fim, disse ao Jorge: vou ajudar-te a construíres a ponte de Portugal para o Brasil. Vai para lá, à confiança que eu serei o teu “anjo da guarda e protetor”.

O sucesso de JJ no campeonato brasileiro assentou numa filosofia de trabalho diferente daquela a que as equipas brasileiras estão habituadas e, mais uma vez e na linha dos seus colegas treinadores portugueses que trabalham no estrangeiro, e são muitos - incluindo todas as outras profissões, “confirma-se” que os portugueses são tão bons como os melhores, mas no estrangeiro. Aqui, no nosso “cantinho à beira-mar”, há muitos vícios, por exemplo, a inveja e que JJ também teve que vencer nos seus colegas treinadores das restantes equipas do campeonato do Brasil. Novos métodos de trabalho resultam muitas vezes enquanto são novidade e, obviamente, tendem a ser seguidos pelos “concorrentes”. Contudo, JJ tem o mérito de ter arriscado mudar coisas num país onde o ‘samba e o forró’ fazem parte da cultura de todos os brasileiros não “estrangeirados”. Já o sucesso na Taça dos Libertadores, a “equivalente” à Liga dos Campeões na Europa, o percurso não foi tão convincente porque não eram apenas equipas do Brasil e na final contra a equipa argentina do River Plate, o Flamengo esteve quase a sair derrotado. A poucos minutos do final do jogo, a equipa de JJ estava a perder por um golo e, qual milagre de Jesus (não o JJ), a equipa deu a volta ao resultado e ganhou a taça. Foi a loucura no Rio de Janeiro. Afinal, Jesus, cumpriu a promessa feita ao JJ e a “ponte” ficou mais sólida.

Jorge Jesus foi “endeusado” na cidade do Rio de Janeiro, cuja Prefeitura o condecorou e, por cá, onde tinha alguns milhões a torcer pelo sucesso dele, como se fosse a vitória deste pequeno país sobre o colosso que é o Brasil, também, provavelmente, será condecorado pelo nosso Presidente da República, afinal condecora-se tanta gente sem que se compreenda o seu mérito. Devemos saudar JJ, mas sem ilusões de que o impacto do seu êxito não é, minimamente, suficiente para criar uma verdadeira ponte entre Portugal e o Brasil que favoreça os dois povos. Aos governos e às diversas instituições, de lá e de cá, cabe o papel maior na construção dessa real ponte.

Serafim Marques

(Economista Reformado)

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