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Reencontrar e reaprender a ocupar o espaço vazio

Publicado quinta, 04 março 2021 14:17

A 22.ª edição do Festival literário “Correntes D´Escritas” decorreu (online) nos dias 26 e 27 de fevereiro, na Póvoa de Varzim, e prestou uma justa homenagem ao escritor chileno Luís Sepúlveda (falecido em abril de 2020, por corona vírus, pouco depois de ter participado na edição do ano passado) (...)


A 22.ª edição do Festival literário “Correntes D´Escritas” decorreu (online) nos dias 26 e 27 de fevereiro, na Póvoa de Varzim, e prestou uma justa homenagem ao escritor chileno Luís Sepúlveda (falecido em abril de 2020, por corona vírus, pouco depois de ter participado na edição do ano passado).

“Escrevo porque tenho memória e cultivo-a escrevendo” – afirmou este consagrado escritor e grande contador de histórias num dos textos do seu livro “O General e o Juiz”.

Esta frase foi o mote para unir destacadas personalidades da cultura que, a respeito do tema da “memória”, desenrolaram um conjunto de ideias interessantes que me despertaram algumas reflexões do tempo atual que ouso aqui partilhar com os estimados leitores.

A chave mestra do raciocínio/tortura a que vos submeto é esta: - Na construção da nossa identidade, individual e coletiva, a memória parece uma questão banal, mas não é!

Na verdade, o peso da memória, isto é, o que será lembrado e o que será esquecido deste período funesto da nossa vida também é um desafio que temos pela frente.

Cada um terá a sua própria memória, as suas recordações e lembranças individuais, mas os efeitos na memória coletiva, o que será partilhado, o que ficará no espaço que ocupamos tem um papel essencial na definição da identidade da comunidade, definirá o nosso futuro.

Além dos efeitos económicos, sociais, educacionais, culturais e de saúde, a construção desta memória coletiva pode implicar novas trincheiras e campos minados para o futuro - um perigo que espreita e para o qual temos de estar vacinados.

Mas alguns de nós já fomos vacinados; não me refiro à vacina física propriamente dita, mas, na minha perspetiva, muitos de nós já estamos vacinados contra as convulsões avulsas, despropósitos, tumultos ruidosos, batalhas do nada, murmurinhos silenciosos, balcanizações, radicalismos, frenesins injustificados, equívocos, excessos de linguagem, desencontros, verdades viciadas… tão comuns nos dias que correm, e no meu caso particular até já levei mesmo uma dose extra de vacina contra todo o tipo de intolerâncias.

Com ou sem vacina, é um dever de todos nós resistir ao imediato com racionalidade e clareza porque apesar dos aparentes sinais de caos, afinal iremos sobreviver, como sempre.

Na lonjura do espaço, tudo é efémero. Continuando, em cada manhã, não podemos ignorar o que vivemos, mas também temos de reforçar o que queremos ser.

De imediato temos uma tarefa acrescida. Temos de aceitar o que se passou, resistir e ter a capacidade para entrecruzar as terríveis histórias que as famílias, todas, sem exceção, viveram neste tempo, de preencher os espaços vazios que foram criados, de (re)construir a memória e o futuro, imaginar e partilhar uma sociedade melhor.

É tão importante tentar guardar a memória por exemplo de um local, um momento ou de alguém que ficará eternamente no nosso coração, como a capacidade de esquecer, de perdoar, de sanear, de limpar, porque também isso é essencial para avançar e deixar para trás determinadas coisas.

Este processo de construção da identidade, essa mistura entre manter a memória e deixar lugar ao esquecimento é difícil de estabelecer. É isso que teremos de negociar enquanto indivíduos e sociedade.

Já são muitos os dias em que acordamos desanimados, perdidos, confusos. Temos que ir buscar forças e construir novas memórias para o futuro.

E também escrever (também vale crónicas de jornal, pelo menos eu tentei) e relatar as histórias para que não se percam com facilidade, até porque “Temos de vigiar constantemente a estupidez”, outra famosa frase do

Luís Sepúlveda, mas isso é tema para outra conversa porque agora chegou o “memorável” dia dos filhos levarem os pais à vacina da esperança.

Vila Nova de Cerveira, 27 de fevereiro de 2021.

Opinião de Vítor Nelson Esteves Torres da Silva

 

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