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O Alto Minho e a “Pneumónica”: Uma breve reflexão

Publicado quinta, 19 março 2020 14:12

O Alto Minho vê-se a braços com mais uma epidemia, desta vez o Coronavírus - Covid-19. A realidade atual incita-nos a uma breve reflexão acerca do tema. O tempo, por vezes, parece-nos tão distante quanto tudo aquilo que o fez esquecer. Se (...)


O Alto Minho vê-se a braços com mais uma epidemia, desta vez o Coronavírus - Covid-19. A realidade atual incita-nos a uma breve reflexão acerca do tema. O tempo, por vezes, parece-nos tão distante quanto tudo aquilo que o fez esquecer. Se para uns um simples ano é tempo demais, para ou-tros é um ápice. O século XX parece-nos distante, mas também ele foi testemunha de uma enorme epidemia: “Pneumónica” ou “Gripe Espanhola”. Entre 1918 e 1919 ocorreu o seu grande pico, foi nestes dois anos que mais devastou, causando grande morbilidade e mortalidade, sobretudo nas faixas etárias mais jovens, ao contrário da pandemia atual. A “Pneumónica” dizimou mais seres humanos do que o cataclismo provocado pela - 1ª Grande Guerra - de tal modo, que a sua designação, por si só, acordava os temores da mais serena alma. A doença ceifou arbitrariamente nos mais variados estratos sociais, fossem ricos ou pobres. Todos eram «democraticamente» atingidos, perdendo as suas vidas e, com isso, devastando tantas vezes as estruturas familiares até aí constituídas. O flagelo, considerado o maior do século XX, ceifou entre 20 a 40 milhões de vidas em todo o mundo. A origem geográfica da doença é por alguns apontada para a Ásia, outros há que apontam o seu foco para os Estados Unidos e até mesmo para a Europa. O certo, é que essa maleita abrangeu praticamente todo o território nacional. Refira-se que nessa época Portugal debatia-se com outras doenças infecciosas, como a Varíola, o Tifo, e a Febre Tifoide, o que colaborou para que o nosso país fosse um dos mais assolados por doenças infeto contagiosas. A primeira vaga da epidemia surgiu em maio de 1918, propagando-se a partir da raia espanhola, devendo-se ao movimento de trabalhadores sazonais provenientes do país vizinho, sobretudo de Badajoz e Olivença. Outra fonte da epidemia manifestava-se através das peregrinações, e das viagens com origem em Madrid, Lisboa e Porto. Este primeiro surto foi encarado pela população de ânimo leve, embora tenha acionado os alarmes da sociedade médica. Todavia, em agosto desse ano ocorreu uma segunda vaga, dessa vez mais fatal, causando pneumonias fulminantes. O que aconteceu em Vila Nova de Gaia, alastrando-se ao Porto e, posteriormente, ao Norte, levada pelos Soldados com licença para regressar a casa. A doença encontrou nas fábricas, nas igrejas, nos transportes públicos e marítimos as condições necessárias ao seu alastramento, devido à elevada concentração de pessoas que isso implicava. O Distrito de Viana do Castelo tinha em 1911 cerca de 227.250 habitantes, em 1920 sofreu um decréscimo, passando para 226.046. A queda demográfica ficou a dever-se não apenas às várias epidemias que grassavam, mas também ao fenómeno de emigração de muita da sua população, em busca de melhores condições de vida no estrangeiro, como o Brasil. Os Concelhos que perderam gente foram: Arcos de Valdevez - Melgaço - Monção - Ponte da Barca - Valença e Vila Nova de Cerveira. A “Pneumónica” foi assombrosa para muitas famílias, que preferiam ver os seus familiares finarem-se em casa, junto dos seus, ao invés de irem para os hospitais, que eram conotados com a pobreza e mendicidade. O recurso a mezinhas e métodos pouco ortodoxos era muito frequente. Os sinos, tantas vezes marcavam o fim do tempo de alguém, e o início do sofrimento de tantos mais. A todo este cenário negro juntaram-se os efeitos da Guerra, a elevada pobreza, a falta de salubridade, a inexistência de antibióticos, a pouca fé na medicina, nos médicos e boticários, e um elevadíssimo número de pessoas analfabetas. Ao contrário do que os médicos franceses aconselhavam no século XVIII, relativamente aos riscos da permanência de familiares e amigos nos quartos dos enfermos, o que potenciava o alastrar da epidemia, em Portugal os doentes queriam a proximidade daqueles que lhes enchiam a alma às portas da morte, e com isso proliferava a epidemia. A “Pneumónica” obrigou ao encerramento de mesteres, padarias, mercearias, e todo um conjunto complexo de atividades económicas que mantinham a normalidade na vida dos cidadãos, que desde aí foi rompida. A falta de médicos era avassaladora, e muitas farmácias encerraram, devido à doença que afetou os seus trabalhadores, fossem médicos ou farmacêuticos. Os transportes sofreram alterações, os periódicos deixaram de ser publicados, as festas foram extintas, e todos os eventos que promovessem os ajuntamentos. Enfim, um pouco como acontece hoje, com esta maldita doença, invisível e silenciosa, que já faz vitimas na nossa pátria. Portugal está de novo assolado por uma doença que sempre se deu bem com os seus melhores parentes: a pobreza - a ignorância - e a inércia do Estado. Há quem especule, e atire para a manipulação de um qualquer laboratório, que inventou o vírus; outros há que a imputam ao consumo de animais, como morcegos - o que é comum na China, o foco da doença. Contudo, num país cujas respostas às necessidades emergentes de um tempo normal se fica pela debilidade, o que referir num tempo de enorme desafio? Sirva-nos, caro leitor, de premonição quanto àquilo que não devemos permitir, como um Estado debilitado numa das mais elementares Instituições, como é o caso do SNS - Serviço Nacional de Saúde. Terminamos lembrando que todos os recursos devem ser dados à Saúde Pública, e não aos Bancos, verdadeiro sorvedouro do erário público. Pensem nisso, na hora de dobrarem o vosso Boletim de Voto. Se preferem a mudança, ou mais do mesmo. Um século depois dessa fatídica epidemia, continuamos pobres, sobretudo de espírito, quando constatamos que 20% da nossa população vive na pobreza.

Pestes, não são esquecidos arrumos do passado,
destroem gerações, em sofrimento descontrolado.
Grassa o temor, ao semelhante e ao seu redor,
ninguém quer ser casulo, dessa Peste sem sabor.
Outrora, feita pesadelo de todos os acordados,
adormeceu com sua foice, os mortos enjeitados.

Rui Manuel Marinho Rodrigues Maia
Licenciado em História pela Universidade do Minho

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