segunda, 25 maio 2020
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O maio de antigamente

Publicado terça, 19 maio 2020 11:12

Fui nado e criado numa casa de lavoura, onde os trabalhos agrícolas eram feitos manualmente e com alfaias rudimentares de tração animal (carro de bois, arado de rabiças, grade de dentes metálicos, e outras do género). Não havia ainda tratores (...)


Fui nado e criado numa casa de lavoura, onde os trabalhos agrícolas eram feitos manualmente e com alfaias rudimentares de tração animal (carro de bois, arado de rabiças, grade de dentes metálicos, e outras do género). Não havia ainda tratores nem outros meios motorizados.

Os grandes trabalhos realizavam-se no mês de maio, época em que que se procedia às sementeiras do milho.

Era um mês muito duro em que pessoas e animais trabalhavam o dia inteiro, numa azáfama sem limites e inimaginável para os dias de hoje.

Alta madrugada, ouvia-se o chiar dos carros de bois acarretando o estrume para a fertilização da terra (raramente se usava adubo químico) e durante o dia juntas de bois (normalmente vacas) puxavam o arado que virava a terra do avesso.

O arado, puxado pelos animais, era conduzido por uma pessoa agarrada às rabiças que executava as manobras inerentes à respetiva tarefa e incitava as bestas com vozes típicas, tais como “vira”, “ao rego” e outros temas de que já não me recordo. Lembro-me é que as vacas (ou bois) se bem treinadas, ninguém as conduzia pela soga e quando chegavam ao limite da propriedade que estava a ser lavrada, á voz de “vira” elas invertiam a marcha e, “ao rego”, a besta que alinhava do lado da terra lavrada seguia ordeiramente pelo rego aberto na viagem anterior. Quando os bois ou as vacas não tinham o treino antes referido eram conduzidas (à soga) por crianças de tenra idade, como era o meu caso que, muitas vezes antes de entrar na escola às nove da manhã, já tinha ajudado a minha mãe a lavrar uma leira. Era dura a vida do campo mesmo para as crianças a quem não era reconhecido o direito de brincar.

Era um mês muito cruel quer para as pessoas quer para os animais pois tudo tinha de ser feito num curto espaço de tempo (um mês e pouco mais) e, já para o fim do mês, as bestas apresentavam o cachaço despelado, calejado e, em alguns casos, esfolado, por tanto ter sido roçado pela canga no seu esforço de puxar pelo arado e pelo carro. Escusado será falar das mãos do lavrador que de tanto agarrarem a enxada e a rabiça do arado estavam encortiçadas, gretadas e mais calejadas do que o cachaço dos animais.

Terminadas as sementeiras, os campos verdejavam com o milho nascido e toda a natureza parecia estar agradecida pelo trabalho realizado.
Seguia-se as sachadas (ainda se não utilizava herbicida) e depois as regas dos milhos, numa corrida contra o tempo, em que as pessoas eram escravos sem dono, trabalhando dia e noite para virem a ter um naco de pão na mesa.

Hoje as silvas invadem os campos que outrora produziam pão, mas isso significa progresso, pois quer dizer que as novas gerações têm oportunidades de um bom nível de formação, encontram facilmente trabalho sem escravidão e obtêm o necessário sustento sem se sujeitarem às condições de antigamente.

Os campos estão de monte mas proliferam as grandes unidades industriais e as grandes superfícies comerciais, que dão emprego a toda a gente, com salários razoáveis e com horários de trabalho que deixam tempo livre para o convívio social, fazendo vingar o lema de que “nem só de pão vive o homem”.

Aprecio as novas condições de vida, também lutei por uma vida melhor, venci, e não tenho saudades do passado.

Manuel Joaquim Faria Barbosa
Nogueira/Porto

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