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A Indústria Conserveira em Portugal: Uma emergência dos tempos

Publicado quarta, 08 abril 2020 08:08

A breve história da Indústria Conserveira em Portugal que aqui lavramos, advém da necessidade de levar ao leitor a sua origem, e os paradigmas que se foram desenhando ao longo dos tempos, e que sempre deram a este setor um novo fôlego. Hoje, os tempos que atravessamos, colocam mais uma vez este (...)


 * Subsídios para a nossa história industrial *

A breve história da Indústria Conserveira em Portugal que aqui lavramos, advém da necessidade de levar ao leitor a sua origem, e os paradigmas que se foram desenhando ao longo dos tempos, e que sempre deram a este setor um novo fôlego. Hoje, os tempos que atravessamos, colocam mais uma vez este setor num lugar cimeiro / necessário. Tudo começou quando em 1804 Nicolas Appert descobriu o princípio da conservação pelo calor em recipientes hermeticamente fechados. Todavia, foi com o inventor inglês Peter Durand que as conservas conheceram o seu formato definitivo, ao patentear em 1810 o invólucro metálico, colocando de lado o invólucro de vidro de Nicolas Appert. A invenção, tornou exequível a adaptação da lata à conservação de alimentos.

Assim, nascia um produto com características adequadas ao desenvolvimento industrial / comercial. O processo denominava-se “appertização”, ou seja, esterilização pelo calor - dando origem a um produto de longa durabilidade, acondicionado num invólucro metálico hermeticamente fechado, configurando um produto seguro, de fácil confeção e, na generalidade, pronto a consumir. A sua descoberta abriu um novo horizonte para as indústrias alimentares. Todavia, nem todos os países do Mundo reúnem as necessárias condições ao desenvolvimento de indústrias conserveiras, particularmente, as de peixe. Portugal foi desde sempre um país de tradições marítimas, de pesca, de grande ligação a essa grande riqueza da Terra: O Oceano Atlântico. A dimensão da área do mar territorial de Portugal, incorporando todas as parcelas do território, é de aproximadamente 50.957 km2, dos quais 16.460 km2 correspondem à parcela do continente, 23.663 km2 à parcela do arquipélago dos Açores e 10.834 km2 à parcela do arquipélago da Madeira. Logo, é indiscutível a nossa capacidade em desenvolver o setor, incrementando a sua produção em momentos-chave, como no presente, em que o confinamento requer formas de recurso a alimentos de fácil acesso e duradoiros. Há quem refira que Portugal teve uma representação do setor conserveiro na Exposição de Paris em 1855, com produtos enviados de Setúbal (sardinhas em azeite). O setor das conservas de peixe foi-se desenvolvendo ao longo dos tempos, sobretudo a partir de Oitocentos. A I Guerra Mundial deu origem a uma demanda muito grande de produtos em conserva, fosse para abastecer os militares, quer mesmo para a população civil. Na primeira metade do século XX o setor das conservas de peixe em Portugal era notoriamente expressivo, com mais de uma centena e meia de indústrias a laborarem. A II Grande Guerra foi outro paradigma que fomentou a importância do setor conserveiro. Portugal transforma sobretudo a Sardinha da espécie “Pilchardus”, o Atum nas suas mais variadas espécies e a Cavala. A Sardinha é de facto o recurso mais abundante e capturado nas nossas águas, representando cerca de 40% da captura da nossa frota nacional. A indústria das conservas sempre se revestiu de importância maior para a nossa sociedade, quer ao nível local, quer regional. Há comunidades praticamente inteiras que dependem deste setor - muitas vezes a sua única fonte de rendimentos. No setor predomina a mão de obra intensiva, realizada, grosso modo, por mulheres. O que contribui (indiretamente) para parte do emprego na frota do cerco, e noutros setores localizados mais a montante ou a jusante. O setor das conservas de peixe reveste-se de um papel muito importante para a economia do país, uma vez que a sua capacidade exportadora é expressiva, o que favorece a nossa Balança Comercial (Exportações VS Importações) - incrementando o (PIB - Produto Interno Bruto). O setor exporta para variadíssimos países, como: França - Inglaterra - Áustria - Estados Unidos da América - Bélgica - Espanha - Alemanha - Itália - Países Baixos - Angola - Suíça - Macau - Canadá - Hong Kong - Israel - África do Sul, etc. Em pleno primeiro quartel do século XXI, as indústrias do setor das conservas, de um modo geral, apontam as suas principais oportunidades, tais como: o pouco tempo disponível dos cidadãos para a preparação das suas refeições - as preocupações nutricionais emergentes e a crescente demanda por snacks de qualidade. O setor das conservas é de facto um setor de muitos sucessos, e com futuro certamente promissor. Até meados do passado mês de março o setor das conservas foi fortemente impulsionado pelo turismo, obrigando as indústrias conserveiras a reinventarem-se com novos produtos: Características mais “gourmet” e uma estética “vintage”. Toda essa inovação caiu bem no goto dos estrangeiros que nos visitaram. Neste preciso momento, em que o setor do turismo sofre um dos maiores abalos de sempre, o mercado interno e externo continuam a impulsionar o setor. Em muitos casos, como é disso exemplo a “Ramirez”, a demanda obriga atualmente a uma produção extraordinária, levando a empresa a recorrer a mão de obra temporária. Os turistas apesar de terem praticamente desaparecido do mapa de Portugal, devido a mais uma Peste asiática que nos fustiga, certamente fazem jus ao bom nome destes fantásticos produtos da nossa pátria nos seus países de origem / propaganda. E, para finalizar, damos uma sugestão, porque “temos lata” para isso: Lembrem-se, naqueles dias em que é difícil decidir o que confecionar para comer, não há melhor que umas sardinhas em molho de tomate picante, num bom refugado de cebola e alho, a acompanhar um babado arroz carolino e, para os que gostam, uma “boa pinga” de vinho do Alto Minho.

Rui Manuel Marinho Rodrigues Maia

Licenciado em História pela Universidade do Minho

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