terça, 18 fevereiro 2020
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Jorge Rey Colaço (1868-1942): Os Caminhos de Ferro e a sua Arte

Publicado terça, 04 fevereiro 2020 11:53

A imensa riqueza de muita da nossa arquitetura ferroviária deve-se a génios como aquele que hoje trazemos a Lume. Tratam-se de personalidades cujas qualidades artísticas contribuíram de forma ímpar para enriquecer o nosso património industrial / cultural. Porventura pouco (...)


A imensa riqueza de muita da nossa arquitetura ferroviária deve-se a génios como aquele que hoje trazemos a Lume. Tratam-se de personalidades cujas qualidades artísticas contribuíram de forma ímpar para enriquecer o nosso património industrial / cultural. Porventura pouco conhecido, ou até desconhecido de muitos, aqui lhe dedicamos o nosso espaço de memória, num tempo em que mais que nunca nos cabe o gesto maior: a gratidão. Talvez, porque o esquecimento é o padrasto do futuro, não queremos a orfandade identitária a invadir as gerações presentes, sobretudo os mais jovens, muito menos as vindouras. O Mestre Jorge Colaço nasceu em Tânger, Marrocos, em 1868, e finou-se no Alto do Lagoal, Caxias, em 1942. Estudou em Madrid e em Paris, com Fernand Cormon, onde se viria a relacionar com os grandes artistas do seu tempo, assimilando a nova corrente estética: Arte Nova. Jorge Colaço fez do desenho um recurso artístico, fosse na caricatura, na pintura e, particularmente, no azulejo. O seu método incidia na pintura sobre o vidrado incolor já cozido, que mais tarde era submetido a uma segunda cozedura, permitindo obter, conforme o auspiciado, efeitos aguarelados, ou resultados similares aos da pintura a óleo. Os trabalhos deste artista repescam a consciência histórica na arte, desde os temas históricos, aos literários e etnográficos, bem como o refundar dessa tradição em Portugal. Atualmente, os seus trabalhos podem ser fruídos em edifícios públicos ou privados, como por exemplo, a Estação Ferroviária de São Bento, na cidade do Porto; o Palácio Hotel do Buçaco, no Buçaco; em Lisboa a Casa do Alentejo, ou o Pavilhão Carlos Lopes e a Faculdade de Ciências Médicas; o Palácio de Rio Frio, em Pinhal Novo; o Palácio de Sant’Ana, em Ponta Delgada, etc. Relativamente às grandes composições de pintura em azulejo do artista, produzidas na Fábrica de Loiça de Sacavém, entre 1904 e 1923, ainda hoje são consideradas expoentes máximos dessa arte em Portugal. Entre 1924 e 1942 deu continuidade à sua arte azulejar na Fábrica Lusitânia, em Lisboa. O Fontismo, essa força viva e regeneradora da política portuguesa, levou ao enorme incremento dos transportes em Portugal e, consequentemente, ao desenvolvimento dos meios de locomoção, em particular, os Caminhos de Ferro. O Comboio, esse símbolo de uma aproximação de Portugal aos países mais desenvolvidos da Europa, como a Inglaterra, berço da Revolução Industrial, a França, ou a Alemanha, ajudou a forjar um novo paradigma económico e social. Esse novo paradigma foi, se quisermos, um enorme motor de uma indústria que com ele florescia na Europa: o Turismo. Os painéis de azulejos são uma viajem no tempo, uma brecha de luz sobre a nossa memória coletiva, tantas vezes encoberta pelo véu da ignorância, onde a arte de pintar descortina as mais pitorescas imagens do país, bucólico, religioso, heroico, em cenários populares, e outros eruditos. Essa arte é como uma radiografia historicista, impregnada de identidade coletiva, que essa Nova Era de comunicação difunde, seja nas movimentações quotidianas do trabalho, ou dos estudos, mas muito no lazer, nas viagens que esse paradigma fomenta, cativando cada vez mais adeptos. A segunda metade de Oitocentos foi profícua em avanços técnicos e científicos em Portugal, e claro está, a arte expressa essa viragem de um ciclo de uma quase total ruralidade, e de um obscurantismo intelectual suportado pela iliteracia, e regimes políticos onde o conhecimento pertencia às elites, e nem por isso ao Terceiro Estado - o Povo. As obras de Jorge Colaço na azulejaria ferroviária dão um contributo etnográfico aos que vislumbram essa arte, desde cenários da vida no campo, no rio, episódios da nossa história pátria, que vão enriquecendo o património edificado, enriquecendo também o povo, dando consciência às suas comunidades daquilo que as caracteriza. A regionalidade fica também marcada pelas particularidades de cada narrativa, que corrobora a ideia de pertença às suas gentes e sítios, através do seu património cultural material e imaterial: seus monumentos, seus usos, seus costumes, etc. A arte azulejar é no fundo uma estampa da cultura popular. A obra maior deste artista presente na história dos nossos Caminhos de Ferro encontra-se precisamente na Estação de São Bento, considerada uma das mais belas do mundo, subsidiária do trabalho riquíssimo que brinda muitas das suas paredes, sobretudo no seu Átrio. A Linha do Minho tem ao longo do seu percurso uma riqueza muito grande no que à arte dos azulejos diz respeito. Desde temas mais abstratos, até aos mais populares, onde todos esses trabalhos conferem às Estações de Caminho de Ferro e alguns Apeadeiros uma riqueza incalculável. Não é finalidade deste artigo resumir em escassas premissas este artista, coisa impossível de realizar, mas sim, trazer a lume o seu nome e potenciar a curiosidade a seu respeito, e em particular, perceber de que modo a arte se reveste como marco histórico, temporal, suporte de memória e de identidade, de uma comunidade em especial, ou de um coletivo. Os Caminhos de Ferro, pela sua natureza quase transversal ao país, são uma linha condutora de memórias, e consequência disso, fonte de identidade histórica. Jorge Rey Colaço, é um entre tantos, que com mais ou menos brilho deram vida à nossa etnografia, enriquecendo os espaços com a arte azulejar, onde a história pátria é contada com brio, com rigor, com a feição da mão dos artistas, mas, sobretudo, com a alma lusitana que os bafeja. Há, todavia, por detrás de todas as obras de arte o trabalho de bastidores, de muitos e muitas incógnitos, de quem a História não reza seus nomes, a quem aqui deixamos uma palavra de gratidão pelas maravilhosas heranças que nos legaram. A todos, que Deus seja a sua eterna luz.

Rui Manuel Marinho Rodrigues Maia
Licenciado em História pela Universidade do Minho

 

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