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As eleições nos Estados Unidos

Publicado quarta, 18 novembro 2020 10:23

Finalmente, Donald Trump provou do seu próprio veneno: tornou-se o mais importante novo derrotado. Tenho de confessar que nunca esperei que as coisas chegassem ao ponto de Joe Biden se vir a tornar o novo Presidente dos Estados Unidos. A verdade é que, por quase todo o mundo, (quase) (...)


Finalmente, Donald Trump provou do seu próprio veneno: tornou-se o mais importante novo derrotado. Tenho de confessar que nunca esperei que as coisas chegassem ao ponto de Joe Biden se vir a tornar o novo Presidente dos Estados Unidos. A verdade é que, por quase todo o mundo, (quase) ninguém queria Donald Trump, sendo visto como alguém fora do baralho, mas extremamente perigoso.

Hoje, percebe-se a parte de verdade que esteve por detrás da resposta que, em dado momento, deu na sua entrevista ao 60 Minutos: isso será feito no segundo mandato. Simplesmente, o que precisava do segundo mandato para ser feito não era apenas o que estava ali a ser falado, mas também a globalidade das mudanças destinadas a reduzir a (quase) nada toda a democracia norte-americana. E a projetar esse modelo um pouco por todo o mundo, como já vinha tendo lugar.

Donald Trump era simplesmente bestial e a sua vitória contra Hilary Clinton foi meramente casual. Faltando-lhe cultura para ter um pensamento político próprio, ele tornou-se, em grande medida, num instrumento de certa fação, claramente adversária da largueza de ação que a democracia tem permitido por quase todo o mundo. Todavia, era um teimoso, e percebeu a importância de lançar a família para voos mais altos na política. Foi esta a razão que esteve na base do que se viu com a presença de familiares diretos na vida política do Presidente e logo ao mais alto nível.

Muitos não terão reparado numa previsão sorridente de certo comentador televisivo nosso, na sequência da vitória de Donald Trump: quem poderá vir a ter um futuro político brilhante é a filha, Ivanka Trump. Precisamente o que eu escrevi há umas semanas atrás, ao redor das mudanças constitucionais que a Extrema-Direita norte-americana, que era a estrutura de apoio a Trump, mas que este acabou por dominar, tinha em mente. Desde logo, nos Estados Unidos, mas por aí, pelo resto do mundo.

Este objetivo estratégico de Donald Trump e dos que o apoiavam era a causa de Trump, com a sua política, não ver mal nos regimes que eram liderados fora das democracias, ou com democracias iliberais, como agora se diz. Desde que, naturalmente, não pusessem em causa o poder militar dos Estados Unidos ou a sua supremacia económica. Os únicos riscos poderiam vir da China – razões económicas e militares – e da União Europeia, ainda fiel às regras da democracia liberal.

O objetivo central dos trumpistas, digamos assim, era colocar um ponto final na vida democrática. Simplesmente, mesmo estes sonhadores perceberam que a democracia era uma fator de legitimação aparente para o exercício do poder. Portanto, já que tinha de ser tolerada, nada como reduzi-la a uma (quase) mera aparência formal. Para tal, era essencial ir destruindo o poder das instituições, colocando ao seu leme gente de confiança e garantindo o alinhamento estratégico com o modelo pensado.

No plano internacional, o abandono de quase todas as estruturas multilaterais também reduziria o seu papel e a sua importância. Com o poder militar, o avanço da estratégia iria tendo lugar, quase certamente sem sequer se virem a desenvolver conflitos militares. E, por fim, os políticos servidores ao seu dispor por todo o mundo: os mil e um que recusam a democracia liberal e estão dispostos a deitar por terra as instituições democráticas nos seus próprios países. De resto, Trump percebeu bem, certamente por intuição, o que Jean-François Revel já havia dito sobre a morte das democracias, embora à luz de um outro modelo. O certo é que estas, no mínimo, se mostram instáveis e suscetíveis de ser apropriadas, em seu próprio nome, pelos seus adversários.

O terreno sobre o qual se está a desenvolver esta estratégia é a crescente pobreza no mundo e o grande falhanço do progresso social natural das pessoas e das suas famílias. Estas, de facto, raramente são tidas em conta por via da ação política nas democracias. Criou-se, deste modo, uma legião de vencidos da vida democrática, naturais queixosos do modelo que os vem comandando, o que fornece aos adversários da democracia o terreno essencial às possibilidades do populismo. Aos vencidos da democracia, os populistas prometem o que lhes falta, sabendo, naturalmente, que o seu desespero e o seu desinteresse pelo saber político os virará para os populistas. Bom, Trump, apesar de bronco, percebeu esta realidade.

Joe Biden tem todas as condições para realizar uma ação global, interna e internacional, virada para o combate à pandemia, para a retoma da economia, para o reforço do prestígio das instituições internacionais, e para um realinhamento suportado na Paz com os grandes atores do mundo atual. Ele tem, de facto, de fazer baixar a temperatura do caldo que os neofascistas, mesmo os neonazis, tentaram trazer ao mundo. Com o apoio de Kamala Harris, os Estados Unidos poderão voltar a dispor do papel internacional que hoje todos de si desejamos. Impõe-se ao novo poder político norte-americano fugir da conflitualidade e olhar para os compromissos que se impõem para a construção da Paz e para defender o Planeta e a dignidade dos povos.

Hélio Bernardo Lopes

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