quinta, 13 agosto 2020
Imagem topo

A normalidade anormal e o amanhecer doutra era

Publicado segunda, 04 maio 2020 16:14

Fomos todos apanhados completamente de surpresa. Será esta a pior crise das nossas vidas? Se calhar sim. Porque é difícil imaginar pior. Mas o que temos vivido nas últimas semanas fez-me atualizar (uma vez mais) o sentido das palavras do grande Miguel Torga: - «É impossível que o (...)


Fomos todos apanhados completamente de surpresa.

Será esta a pior crise das nossas vidas? Se calhar sim. Porque é difícil imaginar pior.

Mas o que temos vivido nas últimas semanas fez-me atualizar (uma vez mais) o sentido das palavras do grande Miguel Torga: - «É impossível que o tempo atual não seja o amanhecer doutra era (...)» - Miguel Torga, in “Diário (1942)”.

Cá em casa também fui consumido pelas regras do confinamento.

Engoli a impossibilidade de me despedir convenientemente dos entes queridos que neste período partiram para o eterno descanso; exilei-me dos familiares e amigos; inspirei o peso das rotinas enfadonhas: - Uma vez por semana ir ao supermercado e farmácia, vir logo para casa, descalçar os sapatos, deixá-los à porta, arejar a roupa, lavar as mãos até ao cotovelo, cantar os parabéns a você vezes sem conta, passar gel desinfetante, “teletrabalhar”, ligar os aparelhos para as aulas das crianças, ser pai, filho, cozinheiro, “homem a dias”, professor, marido e animador de ocasião...

Isto foi em casa; colaboramos, aturamo-nos e estamos todos bem! Mas olhando para o que se passa no mundo, vejo que cada País ficou por sua conta e risco, num mundo que teima em não fazer o esforço nem para se entender, nem para “entender-se” genuinamente no que quer que seja, competindo ferozmente até pela aquisição das mascaras a preços exorbitantes.

Em Portugal os sacrifícios foram exigentes; mas os Portugueses foram exemplares na resposta à pandemia, evidenciando uma «cooperação» invulgar que merece ser destacada.

O contrário de «competição» é a «cooperação»: uma resposta mais inteligente e sustentável, e que pode fazer a diferença quando todas as certezas são varridas pelo inesperado, como foi o caso do vírus Covid-19.

Foi a «cooperação» de milhares de anónimos que pode suprir as inúmeras faltas de material de proteção aos profissionais de saúde e a todas as pessoas que não deixaram o País parar. Foi a vontade, e o coração, que colocaram milhares de voluntários a colaborar em rede e a fabricar máscaras, viseiras e até projetos de ventiladores.

Em Cerveira foram muitos os exemplos de solidariedade e ajuda. Respondendo positivamente ao apelo feito por uma Cerveirense (Paula Santos), foi também a «cooperação» de muitas voluntárias que ofereceram o seu trabalho e possibilitou a costura de batas, toucas e capas para disponibilizar a profissionais de saúde das IPSS's, Centros de Saúde, do Hospital de Viana do Castelo e a outras valências hospitalares para ajudar no combate à pandemia.

Pelo que nos dizem parece que em maio já vamos poder saborear um café e pôr a conversa em dia. Resta saber como e muito mais importante, que aprendizagens vamos conseguir reter deste período que nos possam ser úteis no futuro incerto.

E pergunto-vos: todas as coisas que agora sabemos – e que muitos já sabiam há tanto tempo – valerão alguma coisa assim que saltarmos este tempo?

Foi a «cooperação» que permitiu adequar os parcos recursos do País numa luta desigual, uma luta que estamos cooperativamente a vencer, mas que ainda se apresenta de desfecho imprevisível.

Ele (o vírus) continuará por aí, mas temos de virar a página.

No amanhecer da nova era, se a generosidade, a solidariedade e a cooperação que ganharam força neste estado de emergência se perderem e não se afirmarem como uma matriz da nossa sociedade, caminharemos, seguramente, para um País menos coeso e com a liberdade a chegar a cada vez menos pessoas, nomeadamente àquelas que têm vivido amarradas pela pobreza, pela solidão e pelo esquecimento.

Vila Nova de Cerveira, 28/4/20.
Vítor Nelson E. Torres da Silva

 

logo branco

Quinzenário do concelho de Vila Nova de Cerveira. Medalha de mérito concelhio.

Estatuto Editorial do Cerveira Nova

geral@cerveiranova.pt
Telefone: +351 251 794 762

cerveirafm

Subscreva a nossa newsletter e receba as nossas novidades em primeira mão.