sexta, 29 maio 2020
Imagem topo

A Morte do Bom Senso: O Século XXI primitivo

Publicado domingo, 22 março 2020 10:39

A Pré-História é um tempo de há milhares de anos a esta parte, julgando o Homem que passado esse infindo tempo se evoluiu na racionalidade. De facto, presenciamos uma das maiores provações à nossa capacidade interventiva, como o combate às pandemias, cada vez mais eminentes, causa da (...)


A Pré-História é um tempo de há milhares de anos a esta parte, julgando o Homem que passado esse infindo tempo se evoluiu na racionalidade. De facto, presenciamos uma das maiores provações à nossa capacidade interventiva, como o combate às pandemias, cada vez mais eminentes, causa da nossa insensatez. A sociedade capitalista, o neoliberalismo selvagem, o culto da materialidade, o egoísmo, o egocentrismo, a hipocrisia desnuda e desavergonhada, a corrupção, a fugacidade da vida, que entre os dedos escorre diante as emergências que as sociedades ocidentais foram capazes de produzir, sobretudo após a 1ª Revolução Industrial, são males que teimamos alimentar. A nossa capacidade inventiva, a nossa capacidade globalizadora, parece tão efémera quando rapidamente aferimos que o Mundo apodrece, numa lepra lenta, testemunhada na mais pacata serenidade. E, perguntamos a nós mesmos, que Mundo é este? Afinal, a fome, a pobreza, as pestes e outros cataclismos continuam a pautar os noticiários de um Mundo «avançado», empestado de tecnologias, de Redes Sociais, de telemóveis que aspiram para os seus ecrãs o resto que ainda nos sobra de discernimento. O fanatismo pelo futebol, a cegueira partidária, a vontade em amontoar dinheiro - numa qualquer conta bancária onde os números produzem um brilho nos olhos, são apenas algumas das causas de cegueira intelectual de que o Homem padece. Portugal, com 20% de população pobre, Angola com a maior taxa de mortalidade infantil do Mundo, a Síria, levada ao colo pela desgraça, Mianmar, o holocausto de uma etnia, o Brasil minado pela corrupção, governado por um louco, e uma Europa que se desintegra, fruto da sua incapacidade em dar corpo a um verdadeiro projeto comum, são exemplos de um Mundo desenvolvido para parir a desgraça. O velho adágio bem reza: com o mal dos outros, vivo eu bem. É mesmo, só tocamos os sinos a rebate quando a morte parece querer democratizar-se numa onda de rapidez que se propaga no seio da tecnologia de ponta. Talvez, quiçá, este prenuncio apocalíptico seja para outros países o pão nosso de cada dia. A Etiópia, a Coreia do Norte, e tantos outros países que nunca sentiram a equidade e o respeito pelo próximo, e pelos mais básicos Direitos do Homem, consideram certamente estes dias como dias triviais. Enfim, o Homem deita-se na cama que faz, numa cama que teima em destruir a vida na Terra, numa cama que teima em olhar para o lado, quando existe sofrimento, na mesma cama onde nasceu, mas na qual não quer morrer. E quando num sinal como este, de total pandemia, com milhares de mortes, alguns teimam em seguir as suas vidas como se nada fosse, está tudo dito! Apelidam a voz do povo de populismo, a verdade de mentira, a corrupção é paradigma, a justiça é para quem pode, e não para quem quer, a democracia é para alguns, e a ditadura da Lei para os que fizer falta. Assim, caro leitor, vivemos neste Mundo. E continuamos a achar que tudo aquilo que abala as nossas pretensões é abominável, sem pensarmos que os abomináveis são criados pelas assimetrias do Mundo que todos testemunhamos, na maior serenidade. E, assim, nesse Bom Senso que nos foi imposto pelas classes políticas do Mundo, continuamos as nossas vidas, as vidas de ovelhas tresmalhadas, à espera que o verde das pastagens nunca acabe. Afinal, continuamos primitivos, ou pior que isso.

Rui Manuel Marinho Rodrigues Maia
Licenciado em História pela Universidade do Minho

logo branco

Quinzenário do concelho de Vila Nova de Cerveira. Medalha de mérito concelhio.

Estatuto Editorial do Cerveira Nova

geral@cerveiranova.pt
Telefone: +351 251 794 762

cerveirafm

Subscreva a nossa newsletter e receba as nossas novidades em primeira mão.