quinta, 02 abril 2020
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Suprema ilusão

Publicado sábado, 28 março 2020 10:42

Com frequência densa, o Papa Francisco tem-se batido pela defesa das pessoas contra o espírito de descarte que o triunfo neoliberal trouxe ao funcionamento de toda a Comunidade Internacional, bem como à maior parte das comunidades nacionais. Ficará para a História a sua (...)


Com frequência densa, o Papa Francisco tem-se batido pela defesa das pessoas contra o espírito de descarte que o triunfo neoliberal trouxe ao funcionamento de toda a Comunidade Internacional, bem como à maior parte das comunidades nacionais. Ficará para a História a sua corretíssima e igualmente clara afirmação de que a presente economia mata. Infelizmente, os egoísmos de todo o tipo vão-se impondo sem parar e quase sem limite.

Este tipo de atitude está também presente no seio do funcionamento da dita União Europeia. Uma estrutura que tem vindo a operar mudanças no pior sentido imaginável, quer na sua atitude perante os migrantes em fuga de guerras criadas, de um modo muito geral, pelo Ocidente, quer de crises surgidas no seio do capitalismo selvagem que triunfou depois do fim do comunismo, quer do que agora está a ver-se com a pandemia da COVID-19.

Ora, perante a presente crise sanitária, ao redor da COVID-19, a prioridade das prioridades é salvar vidas, como muito bem disse – e naturalmente, claro está! – o nosso Primeiro-Ministro, António Costa. Simplesmente, este objetivo, absolutamente essencial, vai ter consequências deveras terríveis no plano económico futuro. Consequências que, a não serem enfrentadas ao nível da União Europeia, voltarão a trazer o fosso entre Estados europeus ricos e menos ricos que se pôde ver, sentir e sofrer na anterior crise de 2008.

É verdade, como também referiu António Costa, que a razão pela qual a União Europeia flexibilizou o pacto de estabilidade é por uma razão muito simples: não há nenhum país da União Europeia que esteja preparado, à partida, para enfrentar situações com esta dimensão. Bom, é um facto marcado por uma objetiva evidência. Simplesmente, nesta famigerada União Europeia há quem continue apenas a olhar para o seu interesse meramente nacional, e que é, em última análise, um interesse que coloca as pessoas na tal zona do descartável. E, como teria sempre de dar-se, esses são os Estados mais ricos da tal União Europeia.

Diz agora o Primeiro-Ministro que a União Europeia ou faz o que tem de fazer, ou a União Europeia acabará, referindo-se à hipótese de não se enfrentar corretamente os efeitos económicos e sociais da pandemia da Covid-19.

Pois, aqui está uma afirmação que não tem para mim fundamento. E a razão é simples: a União Europeia, já desde há muito, passou a colocar o modelo social europeu do pós-guerra no final da lista dos seus principais objetivos políticos. De um outro modo: primeiro a riqueza, o dinheiro e as empresas privadas, só depois, lá muito no fim, as pessoas. E é por ser esta a realidade que está na base da atual União Europeia que esta não acabará por via de serem as pessoas secundarizadas. Uma realidade a que há que juntar o facto – porventura o mais importante – de ser a União Europeia uma estrutura suportada em Estados nacionais, cada um com a sua marca histórica própria. E é também por serem assim as coisas desta União Europeia, que Estados como a Hungria e a Polónia ainda continuam, nas calmas e com sorrisos, a fazer parte dela. Esta é uma simples união de negócios, com tudo o resto a fazer de conta. É também por ser esta a realidade, que ela não tem uma política externa, a não ser contra os mais fracos e se os Estados Unidos consentirem.

O que se passou com os Skripal – sobreviveram – e com Kashoggi – assassinado, esquartejado e escondido – mostra, à saciedade, a verdade do que escrevo antes.

A União Europeia referida pelo nosso Primeiro-Ministro, como pela grande maioria dos nossos políticos, é a suprema ilusão que nos fez cair em tentação. Hoje, já sem as antigas províncias ultramarinas, é como atores secundários na União Europeia que nos encontramos. Uma realidade que me traz ao pensamento estas palavras de Marcelo Caetano, então Presidente do Conselho: sem o Ultramar Português, Portugal ficaria reduzido a uma província da Europa. Fica para o leitor a apreciação do valor de verdade desta previsão.

Hélio Bernardo Lopes

 

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