segunda, 22 julho 2019
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O exemplo de Ramalho Eanes e a memória de alguns

Publicado quarta, 03 julho 2019 10:42

Custa-me digerir aberrações morais. E não consigo mesmo ficar indiferente a absurdos que raiam o obsceno. O que dizer do novo vírus que ataca misteriosamente a memória de alguns políticos, banqueiros e responsáveis (...)


 

Custa-me digerir aberrações morais. E não consigo mesmo ficar indiferente a absurdos que raiam o obsceno.

O que dizer do novo vírus que ataca misteriosamente a memória de alguns políticos, banqueiros e responsáveis institucionais, que quando ouvem perguntas incómodas, respondem invariavelmente (fazendo cara de tansos) que não se lembram, que não eram eles os responsáveis, que já foi à muito tempo, que não estavam presentes nas reuniões onde os assuntos foram decididos e por aí em diante.

É algo imoral e eticamente reprovável. E assim vamos alegremente neste carrossel de passa culpas sem que se apurem os verdadeiros responsáveis pelo esbanjamento do dinheiro e da moralidade pública.

“Ter vergonha da sua imoralidade é o primeiro degrau da escada no cimo da qual uma pessoa sente vergonha da sua moralidade” - Friedrich Nietzsche.

Neste quadro pouco recomendável para a saúde do País, resta-nos ainda algumas pessoas, vozes e atitudes dignas de louvor. Mas estamos mais frágeis.
É que numa palestra na segunda-feira passada, uma das vozes incontornavelmente mais esclarecidas do panorama nacional anunciou que essa seria a sua última intervenção pública.

Refiro-me ao antigo Presidente da República, General Ramalho Eanes, homem pelo qual nutro um enorme respeito e admiração, não só pelo excelente serviço que prestou ao País na qualidade de mais alto magistrado da Nação, mas sobretudo pela firme e irrepreensível conduta ética e moral com que pautou a sua participação cívica.

Inspirou confiança. Defendeu valores. Habituou-nos aos seus bons exemplos de integridade e nunca se deixou seduzir pelos privilégios do poder. Poderia ter sido marechal e recusou a distinção. Poderia ser um homem rico depois de o tribunal reconhecer que o Estado lhe devia um milhão de euros e recusou - queria justiça, não queria dinheiro. Foi nosso Presidente num dos períodos mais conturbados da história e, para quem tem a memória curta – e hoje, desgraçadamente, como temos assistido na televisão, um dos graves problema nacionais é a falta de memória –, é bom que se recorde que foi um dos patriotas que nos salvou da guerra civil.

Pelos seus exemplos de retidão e honestidade são uma marca que ninguém interessado em Portugal pode ignorar.

Como disse o professor Guilherme Oliveira Martins referindo-se a Ramalho Eanes “o bom general como o bom Presidente oferecem em sua defesa, dizem os mais antigos pensadores, os atos e não as conjeturas, a honra e não a ilusão, a vida e não as aparências”.

Na sua última aparição pública o Ex-Presidente falou “que é certo que o País mudou muito e mudou para melhor mas muito mais terá de melhorar nomeadamente ao nível da cultura cívica e no combate à corrupção que ameaça a democracia”.

Na sua análise sobre a democracia durante a conferência, Ramalho Eanes criticou o “facto de os eleitos se transformarem em delegados dos partidos em vez de serem os representantes dos cidadãos”, conduzindo a “uma crise de representação” que coloca em causa a própria democracia, acrescentando que as forças políticas “do arco do poder têm colonizado a administração pública”, nas suas várias vertentes, central, local e setor empresarial do Estado, nomeando mesmo a Caixa Geral de Depósitos.

Já quanto à corrupção, para Eanes, é uma “epidemia que grassa pela sociedade” e isso em parte deve-se não só a uma “cultura de complacência” mas também a um sistema partidário que escolheu a via do “encastelamento”, onde “o mérito foi substituído pela fidelidade partidária” e no qual “a administração pública foi colonizada” pelos partidos, sobretudo pelos do “arco do poder” (“PS e PSD, mas também ocasionalmente o CDS”).

Segundo Ramalho Eanes, “tudo isto se pode modificar e modifica com certeza” quando a sociedade civil for mais “autónoma” e “as empresas não tenham dificuldades burocráticas porque a nossa administração pública responde com prontidão e a justiça não demora quando houver uma fiscalização sobre aquilo que são os atos do parlamento”.

Como neste mundo nada se perde... tudo se transforma, que esta lucidez nunca se tolde.

Vila Nova de Cerveira, 27 de junho de 2019.

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