terça, 26 janeiro 2021
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Uma luzinha ao fundo da gruta

Publicado quarta, 18 novembro 2020 00:00

O contexto era terrível: sexta-feira, dia 13, aguaceiros no horizonte; mesmo assim, sem grande convicção, comecei a escrever este artigo. Ensaiei umas 10 vezes, mas nunca cheguei ao segundo parágrafo. Para ser franco, na primeira investida acho que nem sequer concluí o parágrafo inicial. (...)


O contexto era terrível: sexta-feira, dia 13, aguaceiros no horizonte; mesmo assim, sem grande convicção, comecei a escrever este artigo. Ensaiei umas 10 vezes, mas nunca cheguei ao segundo parágrafo. Para ser franco, na primeira investida acho que nem sequer concluí o parágrafo inicial.

Há dias assim; sem ponta por onde se lhes pegue, de modo que o melhor é ficar quieto, em silêncio a ver as bonitas cores das folhas das árvores e a ouvir o chilrear dos passarinhos. Mas estamos no Outono, não ouço chilros melodiosos de aves canoras, mas um ou outro palrar de papagaios destravados lá vou escutando para mal dos meus ouvidos.

Se era já praticamente impossível desligar da torrente negativa que nos vem consumindo, também agora o raio da legionella tinha de dar um ar da sua desgraça. Falar-vos do presente, hoje em dia é assim um exercício algo penoso, tamanha a dimensão do flagelo que nos atingiu. Mas a vida continua. O futuro começa agora, neste preciso instante em que lê este fragmento de jornal.

Dispensada a abordagem direta ao funesto tema que domina as nossas atenções, não por evitar falar do mau ou por desvalorizar os seus efeitos, mas porque gosto de ser otimista e prefiro mensagens animadoras e animadas, faço nova investida recorrendo ao fantástico mundo animal.

Por exemplo, imaginem que dei por mim a desejar ser um “urso”, fofinho sim e de pelos compridos claro, só para poder hibernar nesta altura e apenas acordar no bafo dos dias mais quentes e supostamente mais tranquilos da primavera.

Como não há registos de ursos católicos, é evidente que hoje não me sinto lá muito católico.

Julgo que não serei o único a ter este desejo temporariamente saneador da realidade. Hibernar é um modo de dizer uma pausa, uma longa “soneca” de Inverno para armazenar energia, ficar com a atividade cerebral estabilizada, despertar numa outra época mais propícia.

Bom, se não podemos hibernar, a verdade é que por incrível que pareça sobra muita coisa para fazer, como por exemplo escrever. Vamos a isso.

Perante notícias pouco ou nada animadoras, não é de estranhar que andemos todos mais stressados, ansiosos numa espiral negativa. Os especialistas alertam que o impacto da Covid-19 na saúde mental está aí e vai agravar-se nos próximos meses. Um novo fenómeno, a que a Organização Mundial de Saúde chama “Cansaço da Pandemia”, atinge já 60% da população.

A Ordem dos Psicólogos Portugueses classifica-o como “um sentimento de sobrecarga, por nos mantermos constantemente vigilantes, e de cansaço, por obedecermos a restrições e alterações na nossa vida”. Os idosos, de maior risco, foram os primeiros a sentir-se mais isolados e mais sós. Logo, mais ansiosos, tristes e desesperados. Mas também os mais jovens acusam o embate.

Mas desta vez já sabíamos o que aí vinha. Temos armas para reagir à perturbação.

Sempre me surpreendeu a capacidade de superação dos portugueses, muitas vezes confundida com desenrascanço. É verdade que gostaria que fôssemos mais metódicos, mas reconheço que este traço de carácter faz de nós um povo excecional, capaz de encarar a mudança mesmo quando esta implica profundas transformações.

Assim, se a vacina física ainda está a caminho, mentalmente já estamos vacinados para este momento que era previsível e chegou mesmo. Sem surpresas, pois, não podemos ficar apavorados, aterrorizados e paralisar; temos de reagir e para aliviar a carga, praticar exercício físico, fazer relaxamento e pensar positivo são alguns dos conselhos dos psicólogos.

E manter os contactos sociais, apesar da distância física. Não é possível ir beber café com as amigas ou jogar às cartas com os amigos, como antes? Então que se faça uma chamada telefónica ou videochamada na qual todos possam falar e ver-se durante um bocado. Não é a mesma coisa, mas é melhor do que nada.

Não somos ursos. Não podemos hibernar mental e fisicamente. Temos de nos manter ativos e comunicar. O que é importante é que as pessoas não se isolem. A ajuda pode estar aí, à distância de um telefonema. Porque às vezes, falar é quanto basta para conseguir ver uma luzinha ao fundo da gruta.

Vila Nova de Cerveira, 13 de novembro de 2020  
Vítor Nelson  Esteves Torres da Silva

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